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Por (*) Ricardo Mansur
Para que os leitores não me considerem como maluco é importante destacar que o artigo foi escrito em 14 de outubro de 2008. Uma terça de calor em São Paulo em que os mercados apresentam um nível de ansiedade acima do normal, mas muito menor que o da sexta feira 10 de outubro.
A enorme quantidade de comunicações trocadas e de solicitações de contatos recebidas nos últimos dez dias tornou obrigatório para este mês o tema crise de confiança e impacto no Service Desk. A coluna falará neste mês sobre as razões e conseqüências da crise e quais são as lições que a organização de tecnologia de informações e comunicações deve aprender neste momento ímpar da história da civilização.
Nunca na vida da história econômica contemporânea viu-se um movimento tão agressivo dos mercados na direção do fundo do poço. Trilhões de dólares foram colocados no mercado, redução planetária de taxa de juros, declarações conclamando a racionalidade, redução da taxa de redesconto, reuniões extraordinárias das maiores economias do planeta, estatização parcial ou total de bancos, perdas bilionárias nas bolsas, países sendo leiloados, créditos sendo congelados, projetos viáveis sendo postos em compasso de espera, ameaça de depressão mundial, quebras de bancos bilionários, propostas para feriado bancário mundial, interrupção por dias dos mercados, montadoras parando a produção no Brasil para dar férias coletivas em Outubro, fábricas que nunca pararam um só dia até hoje interrompendo a produção por semanas, setores como o eletro-eletrônico paralisando vendas por não saber qual preço cobrar em função da enorme variação diária do dólar no Brasil, empresas exportadoras perdendo bilhões de dólares em contratos de proteção cambial, estimativas de redução da safra de 2009 por falta de crédito agrícola e etc.
Estamos vivendo dias extremamente voláteis em que a falta de confiança no mercado e agentes reguladores vem gerando comportamentos com forte componente emocional. No extremo a continuidade dos comportamentos acabariam destruindo o próprio mercado e gerando condições para atitudes destrutivas. A segunda guerra começou com a depressão econômica americana. No entanto, este período também foi caracterizado pelo plantio das árvores do enorme crescimento dos Estados Unidos. As dificuldades e crises geram enormes oportunidades.
Não existem abracadabras e mambo jambos que permitam saber como estaremos na data de publicação do artigo. Ainda existem enormes desafios e incertezas para os próximos dias, semanas e meses. As perdas podem ser bilionárias ou trilionárias. Novas vagas de empregos e projetos estão sendo repensados e existe o risco de alguma contração no mercado de trabalho brasileiro.
Para alguns este oceano de problemas foi provocado pela crise das hipotecas dos Estados Unidos, ganância dos investidores, nível de alavancagem exagerado das instituições financeiras e etc. Na prática existe alguma dose de razão, mas desde de Maio de 2008 o mercado já vinha precificando estas perdas através da redução do preço de commodities e ações. Ou seja, elas influíram, mas não foram determinantes para a atual tormenta financeira. A causa raiz chama-se confiança. Quando o Fed não socorreu o Lemon Brothers e socorreu a AIG ficou obscuro para o mercado quem seria socorrido ou não (na época, setembro de 2008, as explicações não convenceram o mercado).
As pessoas ficaram com a pulga atrás da orelha. Elas não sabiam "quantos esqueletos estavam escondidos no armário". A falta de Controle, Transparência e Previsibilidade (CTP sempre CTP) levou os investidores e correntistas a um comportamento defensivo. Não se emprestava mais nada para ninguém e todo o caixa ia para títulos do tesouro americano em função da sua elevada garantia de devolução.
Chegou-se a extremos nos momentos de elevada desconfiança em que taxas negativas de juros foram aceitas em troca da certeza de recebimento futuro do título dos EUA. Obviamente isto secou o mercado de dólares, paralisou o crédito, elevou taxa de juros, interrompeu o sistema de trocas internacionais e alastrou-se mundo afora provocando quebras de bancos na Europa e seguradoras no Japão.
O nível de incerteza foi tão grande que os mercados precificavam os ativos apenas nos extremos. Altas e baixas que em geral eram recordes. Os agentes deixaram de acreditar que existia controle no mercado e a crença em entidades como bancos centrais, ministérios da fazenda, planejamento, economia e tesouro era mínima. A enorme confiança do mercado na afirmação que ferramentas como acordo Basiléia II, lei SOX, framework CobiT e etc. eram capazes de oferecer CTP amplificou sobremaneira a quebra de expectativas e aumentou o nível de incerteza.
Até o momento (por isto a explicação da data do artigo), ainda não foi percebido pelas autoridades que o real problema para o nível atual de incerteza é a falta de previsibilidade do mercado. Claramente existem sinais de controle. A transparência não é a ideal, mas existe. O que falta para a confiança é previsibilidade. As medidas governamentais mesmo que de grande porte não estão produzindo os efeitos desejados porque o mercado não consegue precificar o risco.
Cada vez é despejado mais dinheiro no mercado e ele demanda por mais ainda. Isto tudo porque para alguns quanto mais dinheiro for colocado maior será o tamanho do problema e, portanto maior é a incerteza e falta de confiança. A conta total pode ser impagável se não forem tomados cuidados com os excessos.
O mercado vem retomando conceitos valiosos e percebeu que o Keynesianismo não era ultrapassado como muitos estavam afirmado desde o começo dos anos 90. Ficou claro que os conceitos de Keynes eram modernos e a sua interpretação era errônea. Em particular eu nunca concordei com a precoce velhice do Keynesianismo. Sempre entendi que a intervenção governamental é necessária, pois em situações de forte stress os mercados comportam-se de forma autodestrutiva.
Na minha visão Keynes definiu o mercado como uma corrida de Fórmula Um em que o carro madrinha entra na pista nos incidentes graves. A intervenção governamental assume o controle por um tempo mínimo e reorganiza o mercado de forma que a previsibilidade retorne. Com o retorno da previsibilidade e confiança a intervenção é encerrada e o mercado volta a sua normalidade de auto-regulação. É quando o carro madrinha deixa a pista e reinicia a corrida.
Hoje vemos a Europa e EUA assumindo este papel de reorganização ao comprarem ações e estatizarem instituições com plano futuro de privatização. Esta ação vem sendo a medida de melhor perspectiva futura, pois ela assegura a previsibilidade no médio e longo prazo. Caso exista constância de propósito e orquestração a medida alcançará o sucesso em pouco tempo (médio prazo) e assegurará a previsibilidade de curto prazo. A previsibilidade de curto prazo será transformada em confiança e heureca estaremos de volta a normalidade.
Previsibilidade é grandeza temporal por isto é preciso algum tempo para que a confiança retorne. Não imagine comportamentos imediatos de euforia como solução. Elevações extraordinárias das bolsas significam apenas que a crise não passou e em pouco tempo teremos baixas também extraordinárias. É preciso que os preços base da economia mundial e nacional estabilizem-se em algum patamar e a partir deste ponto sejam realizadas ações de produtividade. Preços do petróleo, dólar, ações das principais empresas precisam ter comportamento previsível para que a confiança volte ao mercado.
No lado do Service Desk fica a lição aprendida da questão confiança. Nos desenvolvimento das minhas atividades profissionais é comum encontrar esta estrutura sendo chamada de "Esquece Desk". No momento que o Service Desk perder a credibilidade e os usuários deixarem de confiar na organização centralizadora dos chamados de tecnologia de informações e comunicações a própria estrutura entra em colapso. O espelho do que está sendo visto no mercado financeiro deve refletir na alma dos administradores e eles devem aproveitar a situação para explorarem as oportunidades ao máximo através do efetivo gerenciamento do capital intelectual.
O gráfico a seguir mostra o relacionamento entre confiança, inovação e crescimento econômico (em verde estão os países inovadores). A figura mostra como a questão confiança vem inibindo a inovação e crescimento econômico no Brasil. Relacionamento Confiança x Riqueza x Inovação – fonte Revista Época Negócios Outubro 2007
A marca redução de orçamentos, eliminação de postos novos de trabalho, redução de investimentos será a tônica deste final de ano e do ano de 2009, mas a exploração de oportunidades será o grande fato para nós de tecnologia.
Service Desk Verde, estratégias de tecnologia mais inteligentes, integração com o negócio, intensidade ideal de TI e etc. são temas que os excelentes profissionais do mercado nacional terão à sua disposição para desenvolver nos próximos meses e conquistarem realizações corporativas e individuais de enorme porte.
Como ponto de reflexão gostaria de trazer a tona uma prática do mercado. O artigo "Modelos de contratação dividem o mercado de TI", ComputerWorld 503, abordou sobre como os profissionais estão sendo contratados. Questões como passivo trabalhista fizeram parte das conversas. No entanto, ainda não foi percebido que concorrentes não ajudam uns aos outros.
Quem acha que a forma de contratação dos profissionais do seu fornecedor não importa pode estar perdendo muito dinheiro. Quem acha que não é necessário que o fornecedor esteja seguindo um plano de negócio bem elaborado pode estar perdendo mais ainda. O ano de 2009 será o ano da produtividade, quem souber aproveitar entrará em primeiro lugar na fila das promoções profissionais. Sobre o colunista Ricardo Mansur - Diretor do grupo de usuários de ITIL da SUCESU-SP. Atua profissionalmente como consultor especialista de fusões e aquisições. Foi um dos primeiros engenheiros atuante em tecnologia no Brasil a defender a importância e mostrar na prática o retorno de investimento em Tecnologia da Informação e Comunicações. Autor dos livros “Governança Avançada de TI na Prática”, “Escritório Avançado de Projetos na Prática”, “BsC na Prática”, “Implementando um Escritório de Projetos” e “Governança de TI:Metodologias, Frameworks e Melhores Práticas”.
Sobre a SUCESU-SP – Sociedade dos Usuários de Informática e Telecomunicações fundada em 1967. Entidade pioneira na discussão do uso e aplicações da Tecnologia da Informação e Comunicações e na integração com a sociedade.
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